A encruzilhada do Sapiens

Pedra Viva: Serra da Capivara — O Legado de Niède Guidon, escrito por Guilherme Wisnik

Lídia Cavalcante
6 min readAug 17, 2023
Releitura da bandeira do Brasil, utilizando referências do orixá caçador Oxóssi, como seu emblema, o arco e flecha (que recebe o nome de ‘ofá’).
Pintura: Abdias Nascimento — Okê Oxóssi, 1970

Qual é o sentido das pinturas feitas nas paredes de pedra da Serra da Capivara? O que de fato as pessoas que fizeram queriam dizer? Os códigos e razões que levaram esses povos nômades, caçadores e coletores do Paleolítico, a realizar essas pinturas permanecerão para sempre um mistério.

O espanto diante dessas perguntas não respondidas nos faz pensar no próprio sentido da arte, um conceito que criamos muito tempo depois. Provavelmente não foi o nosso sentido de “arte” que guiou esses gestos mas esse sentido é ativado em nós quando vemos essas pinturas.

A emoção diante das coisas inexplicáveis, que não “servem” propriamente para nada mas elaboram perguntas fundamentais sobre o sentido da existência, da passagem do tempo, da fugacidade das nossas vidas individuais.

O que é, afinal, o humano? Será a consciência da morte e da transcendência? Daí os monumentos funerários, os objetos deixados junto aos corpos, a ideia de uma vida que se prolonga para além desta que conhecemos. A arte vem para arrancar a morte do vazio e lhe emprestar um sentido.

O prazer, a festa, os ritos são parte dessa mesma consciência. O erotismo não se separa da pulsão de morte. Cenas de sexo e de guerra convivem lado a lado. E o falo rijo é, também, sinal de poder, dominação.

Desde o descobrimento das primeiras pinturas rupestres na caverna de Altamira, no século XIX, arqueólogos e historiadores da arte levantaram hipóteses, uma das mais aceitas é de que as pinturas feitas, provavelmente pelos xamãs do grupo, tinham um papel mágico para aquelas sociedades.

Para entender isso, precisamos lembrar que os humanos do Paleolítico não concebiam diferença entre realidade e representação. Assim, o animal caçado na parede da caverna é, de certa forma, a caça acontecendo, uma antecipação do efeito desejado.

As pinturas eram feitas nos fundos das cavernas para serem “vistas” pelos espíritos e não pelas pessoas. Mas no caso da Serra da Capivara, assim como em outros sítios arqueológicos do Brasil, as pinturas não foram feitas em grutas de difícil acesso e sim em abrigos ao ar livre.

Além disso, não há aqui uma predominância tão forte de cenas de caça. Há muito mais, a figuração de animais e de humanos em festa, em conflito, em cenas de sexo e até num singelo beijo. Assim, ainda que seja possível atribuir a essas pinturas algum papel mágico, outras questões precisam ser levantadas.

“O que eles pintavam na rocha era o meio de comunicação deles, era um sistema de comunicação extremamente avançado aonde, então, eles não escreviam, não tinha o alfabeto mas através disso… Porque você vê a repetição de certas cenas que deviam ser cenas ligadas a mitos, a ritos deles e são repetidas.”

Niède Guidon

Se o rito cerimonial e a repetição de cenas que se deseja perpetuar coletivamente, as pinturas também o são: lições fixadas na pedra.

Inscrições sobre paredes atravessam a história humana. “Cuidado, cão bravo!”, listas de leis e normas de bom comportamento, protestos políticos, anônimas juras de amor. Hoje, o grafite e o pixo povoam muros, paredes, vagões, asfaltos, placas. Emanação das periferias nas áreas centrais, expressam revolta e vontade de afirmação.

Sua linguagem é ágil e suas mensagens cifradas. Podemos pensar nestas inscrições como os ritos cerimoniais de sociedade criativas e expostas à violência? Sociedades nas quais os sentimentos de exclusão e anonimato produzem formas renovadas de expressão?

Assim como os paredões de pedra do passado, talvez os muros da cidade hoje, sejam equivalentes àquilo que sempre foi o livro dos livros, o lugar primordial da inscrição sagrada: nossos próprios corpos. Furos na carne, furos na pedra. Nos anos 60, defendendo uma arte que não se confina em museus e galerias, o artista Hélio Oiticica bradou: “o mundo é o mundo”.

As descobertas arqueológicas de Niède Guidon e sua equipe no Piauí mudaram radicalmente o modo como compreendemos a chegada do homo sapiens à América. Segundo a interpretação de então, a espécie, surgida na África, há aproximadamente 200 mil anos, teria migrado para a Europa, Ásia e então cruzado o Estreito de Bering por volta de 12 mil anos atrás. Nosso continente, portanto, seria o último a ser povoado pelo homo sapiens. Mas os resultados das escavações no Piauí deixaram vestígios de presença humana muito anteriores a esses dados.

“Começamos a pesquisar aqui as primeiras datações e inclusive eu disse: “olha, acho que vocês erraram, não pode ser”. O que foi datado mesmo são os carvões das fogueiras que eles fizeram. Pesquisas novas com novos grupos que começaram a pesquisar na região ficou demonstrado que o homem estava na América já há muito antes do que se pensava.”

Niède Guidon

Talvez isso importe mais do que pensamos, afinal vivemos até hoje, no Brasil, a síndrome de país novo, um país “descoberto” há pouco mais de 500 anos, onde antes, supostamente, não havia nada.

Mesmo pensadores e artistas progressistas têm insistido na ideia de que estamos sempre começando tudo do zero e que por isso somos naturalmente modernos. Aqui, dizem eles, ao contrário do México e do Peru, com seus impérios monumentalizados em pedra, ouro e prata, só tínhamos povos indígenas nômades que não deixaram nada como memória ou legado. Assim, sendo “novos”, não teríamos um passado pelo qual lutar.

Essa ideia muito persistente na nossa cultura, ecoa uma profunda desidentificação com as culturas ameríndias originárias do Brasil, com nossas florestas, nosso cerrado, nossa caatinga.

Não por acaso, pela ótica dos colonos que vêm ocupando a região amazônica, a majestosa floresta é um grande nada, um vazio a ser preenchido e superado. Mentalidade predatória de origem colonial, que se ancora nesse sentimento de país novo, que quer o progresso mas cujo presente é a destruição constante, a desertificação de ecossistemas e culturas.

Hoje, no entanto, estudos mostram que a floresta amazônica não é apenas um fato natural, mas também cultural, isto é, muitas das espécies vegetais que lá estão, foram plantadas, manejadas e cultivadas por homens e mulheres ao longo de milênios.

Ou seja, a maior e mais rica floresta do mundo é também, em parte, uma construção. E não menos monumental ou espantosa do que uma escadaria inca, uma pirâmide asteca, um templo hindu, uma muralha chinesa, um fórum romano ou uma acrópole grega.

Portanto, o legado de Niède Guidon e sua equipe, assim como o de muitos outros arqueólogos e antropólogos, nos aponta outros horizontes, para trás e para frente.

Que mudanças podem haver em nossas cabeças se nos assumimos como um conjunto de povos com um longo lastro cultural nesse território que hoje cuidamos do Brasil? Ou: que novo chamado de responsabilidade essa consciência nos dá? Afinal, a disputa sobre o passado é que pode criar outros futuros, ainda em aberto.

O pensador indígena Ailton Krenak nos diz que o Antropoceno deixou escancarada a inviabilidade do projeto “Sapiens” pois essa ideia do humano como aquele ser que quer sempre “progredir”, sacrificando tudo à sua volta, esgotando o planeta e buscando a salvação em Marte, revelou o seu limite histórico.

“Um povo que sempre viveu à revelia de todas as riquezas, um povo que habita casas cobertas de palha, que dorme em esteiras no chão, não deve ser identificado de jeito nenhum como um povo que é o inimigo dos interesses do Brasil, inimigo dos interesses da nação e que coloca em risco qualquer desenvolvimento. O povo indígena tem regado com sangue cada hectare dos 8 milhões de quilômetros quadrados do Brasil, os senhores são testemunhas disso.”

Ailton Krenak

Assim, voltamos à pergunta: o que é, afinal, o humano? A que lugar a nossa sapiência está nos levando? Quando olhamos novamente para as pinturas feitas nas rochas da Serra da Capivara por povos caçadores-coletores, lembramos que a luta diária pela sobrevivência não eliminava os momentos de festa e celebração.

Podemos esperar que a consciência sobre a morte e o aniquilamento, inerente à nossa espécie, não seja mais um instrumento para o genocídio e sim o fermento para a conservação e reprodução de infinitas formas de vida.

Autor: Guilherme Wisnik

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